Uma recente pesquisa da Atlas Intel, a Latam Pulse Brasil de agosto de 2025, traz um cenário aparentemente contraditório. O governo Lula é avaliado como melhor que o governo Bolsonaro por mais da metade da população em quase todas as áreas, quase todas as políticas do governo apresentadas são consideradas acertos por mais da metade da população, mas mesmo assim mais da metade, e crescendo, da população avalia mal o governo. O que explica essa discrepância?



Seria fácil repetir o trabalho da ciência política e falar das demografias que aprovam e desaprovam o governo para tentar explicar a situação, mas Bourdieu tem um breve artigo chamado A Opinião Pública não Existe que pode ajudar a analisar a pesquisa não aceitando as suas premissas, mas as questionando.
A primeira observação de Bourdieu é que as pesquisas colapsam questões complexas em perguntas simples. É possível, para ficar em um exemplo da pesquisa, que uma pessoa considere que foi um erro do governo tentar fiscalizar as transações via pix das fintechs e ao menso tempo acreditar que esta é uma medida necessária. Precisaríamos de dezenas, centenas, de perguntas para realmente saber como as pessoas pensam. Isso leva a um grau inerente de imprecisão, tanto maior quanto mais brutal a simplificação. Assim, a pergunta mais geral, “Como você avalia o governo do presidente Lula?” é a mais imprecisa, a mais sintética, a que exige maior compressão da complexidade na escolha de uma das seis opções disponíveis.
Só que esse complexo processo de avaliação não é feito com tempo e antecedência. As pesquisas impõem questões que as pessoas não estão se fazendo no dia a dia. As pessoas não têm uma opinião prévia, já que a opinião pública não existe. Elas a fabricam durante a entrevista, tendo de tomar posição na hora, sem espaço de reflexão, sobre questões que não estão postas cotidianamente para a maioria das pessoas. Como um fenômeno quântico, a opinião pública só existe enquanto é medida, e a medição afeta o resultado. Se pede que o entrevistado tome uma posição em relação a outras pessoas e posições em um contexto relativamente desconhecido, então o modo como o pedido é feito ganha relevância. Nesse sentido, a ordem das perguntas, avaliação global, em relação ao governo anterior e as políticas individuais, talvez revele ao próprio entrevistado uma incoerência entre sua primeira resposta e as seguintes.
Mas o maior aprendizado do texto talvez seja o de que a fabricação das questões é um ato político, determinado por interesses políticos e que delimita o escopo da discussão política. “os problemas que se colocam são problemas que se impõem como problemas políticos. A questão do ensino, por exemplo,
só pode ser colocada por um instituto de opinião pública quando se torna um problema político.”
Assim, a escolha das questões diz que o acordo Mercosul-EU é um fato político relevante, mas a revisão das concessões e necessidade de prova de vida para o BPC não é. Que o imposto de importação para compras abaixo de U$ 50.00 é um fato político, mas que o teto de 2,5% de aumento real do salário mínimo imposto pelo Arcabouço Fiscal não é. A escolha de o que são fatos relevantes pode coalhar a pergunta sobre as políticas individuais de coisas que a população considera acertadas, mas irrelevantes. Uma das medidas mais bem avaliadas, o Desenrola, é também um fracasso em número de renegociações de dívidas realizadas.
Assim, na tomada de posição necessária para compactar a complexidade de um governo nacional em Ótimo, Bom, Regular, Ruim, Péssimo e Não sei, qual o peso de cada política? Felizmente, outra pergunta indica algumas pistas, e outras contradições.

Perguntados sobre os maiores problemas do país, crime e corrupção estão no topo, mas a única medida do governo sobre o tema que aparece na pesquisa, a fiscalização do pix, foi mal avaliada. Mas qual seria o peso de questões como a defesa ou ataque à laicidade do estado? Tendo em vista que o governo é muito bem avaliado entre agnósticos e ateus e muito mal avaliados entre evangélicos, talvez esse problema tenha uma importância excepcional na tomada de posição dos entrevistados, apesar de não ter sido colocado na pesquisa porque não é reconhecido como um problema político. Talvez, o problema não seja a política executada pelo presidente, mas quem é o presidente já que a avaliação negativa se concentra em quem votou em Bolsonaro na última eleição. Ou mesmo no fato de haver um governo, já que quem não votou ou votou branco e nulo, demonstrando alguma rejeição ao sistema eleitoral, também avalia mal o governo.

As pesquisas têm demonstrado relativo sucesso em prever eleições quando não há situações de crise, e duvidar da avaliação do governo não é uma atitude inteligente, mas diante da contradição fica claro que há fatores relevantes que a pesquisa não mostra. Que a seleção de perguntas, atrelada e pautada pelo jornalismo político e econômico, não dá conta de explicar a tomada de posição de uma parcela significativa da população, quais os fatores que as pessoas levam em conta na hora de avaliar o governo? Isso a pesquisa não mostra, e é quase impossível de mostrar. Há pistas do que pode ser procurado em pesquisas qualitativas, e verificadas em pesquisas quantitativas, mas para isso é preciso dar um passo atrás e abandonar a presunção de que as pesquisas são um retrato fiel da realidade, e não a construção de um objeto político.

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