As pessoas precisam viver, e empenham uma quantidade enorme de suas vidas cumprindo tarefas para ganhar o dinheiro necessário para viver. Os que tem dinheiro o bastante não apenas para suas vidas, mas para permitir a vida dos outros, distribuem as tarefas, ou seja, têm o poder de decidir o que vai ser feito, ou não, na sociedade. E sua escolha, normalmente, é “só vai ser feito aquilo que pode ser transformado em mais dinheiro”. Os “negócios viáveis”.

Colocado nesses termos, um pouco mais abstratos, a insanidade do capitalismo fica mais clara, mas esse texto não é sobre a necessidade da revolução proletária e sim sobre os negócios inviáveis. As coisas que nossa sociedade precisa, mas que não são produtos economicamente viáveis, como o transporte coletivo.

A internet mudou o modo como nos relacionamos com bens imateriais, porque os separou do suporte físico e nosso hábito é pagar pelo suporte, e não pelo imaterial. Assim, uma infinidade de coisas se tornou acessível gratuitamente na internet ao mesmo tempo em que deixaram de ser negócios viáveis. A crítica de teatro e literatura, as esquetes de humor, as tirinhas… Essas coisas que a gente precisa, sente falta, mas que tem dificuldade enorme de encontrar um ecossistema que sustente sua realização.

A individualização da vida nos isolou em famílias nucleares em que não há braços o bastante para sustentar as atividades necessárias à vida, porque nos gastamos na busca do dinheiro que é mais essencial. Cuidar das crianças, dos idosos, dos doentes, da casa. Essas coisas que a gente precisa, mas que não consegue encaixar em uma rotina insana que o capital exige.

A necessidade das coisas serem negócios viáveis exige que as pessoas calculem um valor monetário e negociem sua comercialização. Estudem estratégias indiretas de venda, como os canais sustentados por anúncios nas televisões distribuídas. Assim, a lógica do mercado vai se tornando inescapável para todos, guiando todos os aspectos da nossa vida.

Os negócios inviáveis o são porque as pessoas não podem pagar pelo que eles oferecem, apesar de precisarem. Ao impor a lógica do mercado a eles, estamos nos condenando à necessidade, aceitando que o que não é economicamente viável não vai ser feito, por mais que precisemos. O resultado final de deixar as pessoas com muito dinheiro decidirem o que vai ser feito na sociedade é uma sociedade da escassez e da necessidade. Uma vida vazia de tudo que não alcança retorno sobre o investimento.