Isto acabou virando uma série, sem querer. Este artigo busca avançar nas discussões de É a Ideologia, Estúpido (o centro não existe e a divisão do Brasil é ideológica, não demográfica), e O que as pesquisas eleitorais não dizem (as pesquisas tem falhado em fazer as perguntas certas, que captem as opiniões populares, porque se concentram nos temas de interesse da elite intelectual e política, e não nos temas que importam ao povo). Este artigo tenta explorar a cristalização do posicionamento político.
A pesquisa Latam Pulse da AtlasIntel de dezembro tem perguntando em quem as pessoas votariam para presidente, caso a eleição de 2022 se repetisse. E os resultados se repetem. 93% de quem diz ter votado em Lula no 2º turno de 22 diz que votaria em Lula de novo, e 91% que votaram em Bolsonaro votariam novamente em Bolsonaro (p. 58). Após três anos. Após a condenação e prisão de Bolsonaro. Após os planos de golpe serem tornados públicos. Após os bolsonaristas tentarem sabotar o país e trazerem tarifas para nossos produtos. Após o governo Lula apresentar resultados econômicos muito satisfatórios.
O que explica essa cristalização? Voltando, a É a Ideologia, Estúpido, “A ideologia avalia realidade, em vez de ser influenciada por ela“.
A premissa da “pós verdade” [e vim a odiar esse termo] é que a crença é anterior à verdade. As pessoas avaliam o mundo a partir do que acreditam, em vez de acreditar a partir da avaliação da realidade. A posição sobre a economia é resultado da posição política, e não o contrário, portanto não há condições de se construir um novo lulismo, em que uma grande quantidade de pessoas pobres aderiram aos governos do PT porque estes ofereceram vantagens econômicas. A posição sobre a culpa de Bolsonaro sobre o golpe, ou mesmo sobre o quanto um golpe seria justificado é resultado da posição política e não das investigações e julgamento de Bolsonaro. O que explica o quadro político brasileiro É a Ideologia, Estúpido, que é impermeável à realidade, às políticas públicas, às mudanças concretas que um governo pode fazer. Menos de 10% das pessoas que votaram em 22 mudaram de posição política em três anos, pesquisa após pesquisa os jornais cobrem enormes nadas como se fossem mudanças significativas porque o jornalismo precisa de novidade, mas nada, absolutamente nada mudou de fato.
Tenho para mim que o momento em que passamos a usar a ideologia para avaliara realidade foram as jornadas de julho, mas divago. O objetivo do post é entender a cristalização atual, não a origem da avaliação ideológica.
A hipótese de trabalho de muita gente, praticamente consenso, é que o bolsonarismo é um espectro, que existe um núcleo duro rodeado de franjas com diferentes graus de moderação e que seria possível desradicalizar estas pessoas. As categorias da Quaest, “bolsonarista” e “direita não bolsonarista” são um exemplo desta visão. O resultado da repetição simulada das eleições de 22 pela AtlasIntel diz o contrário, que mesmo quem se diz “direita não bolsonarista” ainda votaria no Bolsonaro. O que temos aqui é a realidade mostrando o dedo do meio para modelo de compreensão dela que criamos para evitar dialogar com a conclusão da eleição de 22 de que temos 58 milhões de fascistas no Brasil.
Se era possível sustentar, recém saídos das urnas de 22 que nem todo mundo que votou no Bolsonaro era fascista, após três anos temos que admitir que “nem todo mundo” era menos de 10% dos 58 milhões de votos.
Por que?
Existe uma tentação grande de recorrer a explicações psicologizantes, como dissonância cognitiva ou custo afundado, mas nós que somos materialistas resistimos bravamente a essas tentações, porque sabemos que a mente opera a em condições e contextos materiais concretos, e apelar para a psique antes de identificar as condições materiais é um convite ao erro.
Os processos e condenações contra Bolsonaro tornam difícil defender que sua base realmente acredite em sua inocência. O discurso bastante explícito sobre os aspectos fascistas do bolsonarismo tornam difícil defender que sua base realmente não compreenda a base de preconceito, racismo, misoginia e violência do grupo político. A hipótese mais provável é que quem declara que votaria de novo nele tenha uma concordância de moral com ele. Concorde com a visão de Brasil que o bolsonarismo defende. Que seja anti iluminista, anti laicidade, anti justiça econômica e social, anti minorias. Que veja os avanços civilizatórios desde a redemocratização como retrocessos e que tenha saudades de uma sociedade onde as hierarquias sociais não sejam questionadas. O retorno a uma sociedade em que a desigualdade exija que o de baixo se submete à violência do de cima, ou como não diria melhor El Efecto:
Quer nada
Se tu quisesse paz, tu ia querer também a liberdade, mas tu treme só de pensar
Tu prefere o controle dos corpos
Se quisesse paz, ia querer também ficar em silêncio, mas tu é tiro, é porrada e é bomba
É tanque de guerra na praça
Tu quer é calar o outro, pra tua voz se destacar ainda mais
Tu quer ter mais que o outro, às custas do outro e quer que o outro não reclame
A tua paz, doutor, é pisar no de baixo e não ouvir o grito – Trovoada, El Efecto
Ao mesmo tempo, a pesquisa AtlasIntel mostra algo visível desde antes da eleição de Bolsonaro em 2018: seu apoio se concentra na “classe média baixa”, nas rendas familiares de 2 a 5 mil reais, nas pessoas de ensino médio, em homens e em evangélicos. Ou seja, não estamos falando de da elite que ganha acima de 10 mil e tem curso superior. Há um bolsonarismo sólido nestes grupos, mas minoritário. Estamos falando das pessoas que conseguiram sair da miséria, mas que não conseguiram participar da elite econômica. Das pessoas que pagam caro por camarotes e produtos com o sufixo “gourmet” para tentar se diferenciar. Não a toa o grupo mais disputado pelo projeto da isenção do Imposto de Renda.
A redução da desigualdade social brasileira se deu, essencialmente pela elevação do piso. É comum encontrar pessoas que reclamam que ganhava “7 salários” e hoje ganha apenas 2, porque o salário mínimo brasileiro subiu muito mais que os outros. Pessoas que ganhavam 2 ou três, passaram a ganhar um. Houve um grande nivelamento da parte de baixo da sociedade através da elevação do padrão mínimo de renda e vida. Esse nivelamento atingiu com muito menos intensidade a camada de cima da estrutura de classes brasileira, que é capaz de absorver o aumento do custo do trabalho de empregados, cozinheiros, babás, pedreiros… Esse achatamento da renda fica claro quando observamos, por exemplo o aumento expressivo da parcela dos trabalhadores com carteira assinada que receberam até dois salários mínimos, e se qualificavam para o abono salarial.

Michel Alcoforado propõe que a distância relativa entre ricos e pobres é essencial para a organização da sociedade brasileira. A partir desse argumento é possível defender que ao eliminar a miséria, a pobreza extrema, os governos petistas tornaram boa parte da classe média subjetivamente mais pobres, porque eliminou a distância que garantia a satisfação de quem estava nessa faixa de renda, vinda de haver muita gente em situação pior.
A dignidade mínima que estas pessoas alcançaram, que permitiu um aumento do questionamento das estruturas machistas e racistas da nossa sociedade colabora para a explicação de que o que está por trás desta consolidação do bolsonarismo é um grande contingente de pessoas que se sente atacada por um processo de ascensão social que atingiu os mais pobres e minorias, como mulheres e negros, mas que não as afetou diretamente, fazendo com que elas percebam uma perda de posição social. A identificação com o bolsonarismo é a identificação com a defesa dos privilégios perdidos, mesmo que esses privilégios sejam o de cometer abusos contra os de baixo sem precisar se preocupar com consequências.
O governo Lula busca agradar essas pessoas com políticas como a inclusão de imóveis mais caros no Minha Casa Minha Vida, a isenção de IR até 5 mil reais e outras medidas econômicas, no que parece uma tentativa de repetir o movimento das placas tectônicas do lulismo, o que tem potencial muito limitado de sucesso se a hipótese de que atualmente, ao contrário de 2005, a ideologia molda a realidade, em vez de ser afetada por ela, for verdadeira.
Nesse caso, o mais eficaz não seria o benefício econômico, mas uma intervenção na sociedade civil e na esfera pública defendendo as qualidades de uma sociedade mais igualitária. Um processo que busque a superação de valores morais que beneficiam a diferença e a ascensão individual através da defesa de valores que beneficiam a igualdade e a dignidade humana. Algo expresso no slogan de 2011 do governo Dilma, “país rico é país sem pobreza”, que valorizava não deixar ninguém para trás no processo de desenvolvimento nacional.
Os sinais indicam que a divisão política do Brasil atual é ideológica, e que a economia tem efeitos mínimos sobre esta divisão. Para enfrentar a realidade indigesta de termos 50 milhões de fascistas é preciso que o embate seja ideológico, e não apenas econômico. Disputar os valores que sustentam o bolsonarismo, não apenas beneficiar as demografias onde o bolsonarismo é mais forte.


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