Participar da Federação é participar de um movimento de desgaste do sistema de capitalismo de vigilância, similar ao processo de desgaste do sistema escravista chamado quilombagem, conceito de Clóvis Moura que unifica as práticas de resistência dos escravizados nos quilombos em termos bastante interessantes.
Se o quilombo foi um módulo de resistência radical ao escravismo. a quilombagem — o continuum dos quilombos através da história social da escravidão — foi um processo de desgaste permanente do sistema. — Clóvis Moura. A quilombagem como expressão de protesto radical
Como um bom marxista, Moura vai definir o quilombo como “resistência radical” porque eram espaços cuja organização social do trabalho criava um modo de produção diferente e antagônico ao sistema escravista. Nesse sentido, a quilombagem como prática social, o continuum de quilombos distribuídos pelo espaço e tempo eram experiências de construção coletivas de resistência e consciência que operavam para o desgaste do sistema.
Nas sociedades urbanas atuais os espaços de resistência baseados na recusa radical do modo de produção capitalista são raros. A escassez de espaços onde a vida não seja organizada a partir do trabalho assalariado e da propriedade privada dos meios de produção, limita em muito as possibilidades de construção de algo similar à quilombagem. Há, porém, quem defenda que o mundo virtual cria uma nova forma de organização social do trabalho, baseada não no trabalho assalariado, mas na expropriação.
Shoshana Zuboff identifica que a maior parte do valor, no atual capitalismo de vigilância, não é criado principalmente pelos empregados das big techs, mas pelos usuários das mídias sociais imperialistas. Essas empresas possuem empregados que criam ferramentas de veiculação de publicidade e operam seu comércio, mas a publicidade depende, essencialmente, de haver uma abundância de conteúdo criado pelos usuários. Ao contrário de jornais, ou canais de TV as mídias sociais não criam o próprio conteúdo. Portanto, o valor que atrai os usuários a participar da rede, que os tornam público para a publicidade, não é criado pela companhia, mas pelo próprio coletivo de usuários. É um bem comum e valor da rede não é produzido pela empresa capitalista, mas extraído desse bem comum.
Compreender o funcionamento das mídias sociais imperialistas como uma extração de valor de bens comuns, aproxima esse setor da acumulação primitiva, como Zuboff defende, ou da extração de renda da terra, como Yanis Varoufakis propõe com o conceito de “tecnofeudalismo”. Essa nova compreensão facilita o movimento de recusa radical, nos moldes de Moura, ainda mais para as pessoas que não profissionalizaram sua participação nas mídias sociais.
Deixar de criar conteúdo nas mídias sociais imperialistas é uma recusa radical de que a sua contribuição ao bem comum do conjunto de conteúdo da internet tenha seu valor extraído e privatizado. É uma recusa de participar do sistema econômico do capitalismo de vigilância, ou do tecnofeudalismo, sem recusar a participação em uma comunidade online. É a recusa da identificação da internet com sua forma atual.
A quilombagem de Moura é importante, porque reenquadra a resistência localizada em um movimento maior de desgaste do sistema, o que só pode ocorrer porque esta resistência é radical, é a negação das premissas do sistema, e não apenas uma luta por melhores condições dentro do sistema. Só pode ocorrer porque o quilombo é uma unidade produtiva, que oferece outra forma de organização social do trabalho e reprodução da vida. “É justamente no nível da produção que a quilombagem atinge o sistema escravista, vulnerabilizando-o e desgastando-o através da negação do trabalho do agente mais importante da dinâmica do sistema.”
As mídias sociais imperialistas dependem, essencialmente, da produção de um bem comum: as nossas relações sociais materializadas na forma de conteúdo. Negar este bem comum a estas corporações, impedir a extração do valor da nossa vida social é negar as premissas que organizam o capitalismo de vigilância. É uma revolta radical com potencial para se estender no tempo e no espaço, se ampliar e vulnerabilizar o capitalismo de vigilância. E é isso que a Federação oferece. Manter uma instância Mastodon, usar principalmente esta instância, atrair outras pessoas a fazer isso, pode ser visto por alguns como apenas uma revolta quixotesca, sem chances de sucesso ou consequências concretas. Essa visão não poderia estar mais errada. Não porque cada instância isolada tenha um poder absoluto, ou mesmo o conjunto de instâncias, seu continuum o tenha, mas porque as instâncias são uma negação radical das premissas da organização do capitalismo de vigilância. É esta a chave. É a radicalidade de negar o modo de produção de riqueza do capitalismo de vigilância que torna seu conjunto um elemento de desgaste e fragilização do sistema, que faz da sua existência e disseminação uma tarefa importante, que torna as instâncias em quilombos, refúgios, fortalezas, onde a liberdade é possível.

skarnio
@masdivago MUITO bom!
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Daltux 🐈⬛
@masdivago @cochise @skarnio Compartilhado com colegas progressistas para ver se o ótimo texto ajuda a se conscientizarem da questão. Está difícil.
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Mas divago...
Obrigado pelos elogios =)
Isso está cozinhando desde que tive contato com o conceito de quilombagem por conta do centenário do Clóvis. Estive tentando mapear onde há resistência radical ao capitalismo hoje, e a Web Social é um desses lugares.