O Fediverso não é para você

Sério. Cansei de textos mentirosos explicando porque você deveria entrar nessa nova onda. Sejamos francos, o Fediverso não é para você. Nem vem pra cá.

As pessoas abrem o Instagram ou TikTok em busca de conteúdo infinito, entretenimento infinito, produzido por uma minoria que busca público. A dinâmica é muito parecida com a televisão. E é isso que você quer. Por isso não se deu ao trabalho de escolher uma instância do Mastodon ou usou a rede dois dias e saiu reclamando que é muito parado.

A vida de ninguém é interessante o bastante para produzir conteúdo na quantidade que a rede exige. Tem mais de uma década que o que domina plataformas como Instagram e TikTok são canais profissionalizados, gerando conteúdo em escala industrial, que se fantasiam de pessoas com estratégias parassociais cuidadosamente planejadas. Assim como as crianças sabem que Papai Noel não existe, mas sentam no colo do ator no shopping center, você sabe que o influencer não é seu amigo, mas acompanha a novela em que ele encena que é.

Você não está no Fediverso, junto com milhões de consumidores de conteúdo, porque o Fediverso não tem milhares de criadores de conteúdo. Não é para você. Não oferece o que você quer.

Mas porque não tem milhares de produtores de conteúdo? Isso não é, nunca foi, o dilema de Tostines, do ovo e da galinha. O influencer que leva seu público à ruína financeira em bets, cursos, mentorias e outros golpes, seria plenamente capaz de levar seu público para o Fediverso.

Mas o Fediverso não foi feito para distribuir conteúdo para consumidores infinitos. Não foi feito para mostrar para as pessoas conteúdo publicado por gente que não tem nenhuma relação com elas. Isso exigiria criar perfis de usuários-consumidores para identificar seus interesses, analisar o conteúdo dos usuários-produtores para identificar seus temas e distribuir o conteúdo para os interessados. Isso exige grandes servidores, coletando e analisando o que muita gente faz na rede. O Fediverso foi feito de modo que o meu servidor sequer sabe o número de curtidas total de uma publicação feita em outro servidor. Foi feito para o que eu publico só chegar em outro servidor se alguém do outro servidor já me seguir. Foi feito de modo que a melhor forma de distribuir conteúdo é através da participação dos usuários-consumidores, do boca-a-boca, do compartilhamento orgânico. Foi feito para o conteúdo só poder circular através da rede social, de uma pessoa que se conhece para outra pessoa que se conhece. Isso é incompatível com o modelo da televisão. De distribuir conteúdo para um monte de gente que não se conhece e, cada uma delas, desenvolver uma relação parassocial direto com o influencer. Por isso o Fediverso não é para os usuários-produtores e eles estão certos em não usar.

Instagram, TikTok, são shows do Lollapalooza em que você vai ver artistas sem nem saber quem está ao seu lado. O Fediverso é uma festa no quintal com os seus amigos. Quando alguém diz que o Fediverso é igual à plataforma A, B ou C, mas melhor, está contando uma mentira cabeluda. Não é. É muito diferente. É outra coisa. Não foi feito para ninguém que use e goste das mídias sociais como existem hoje. Não foi feito para você, a não ser que você seja uma das raras pessoas que odeia as plataformas A, B ou C.

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Mas divago...
Mas divago…

Não estou muito certo de nada que eu falo, mas divago…

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24 Comentários

  1. @masdivago muito doido como monopolizaram as mídias sociais e depois de monopolizar e capturar todos os usuários, transformaram numa TV, que tem propaganda da extrema direita, que distopia do krl.

    E a gnt sobrevive hoje com um clone do que foram as redes sociais no início, quando eram uma grande ratoeira.

    • Monopolizaram exatamente transformando em TV. O processo de substituição de uma mídia social por outra é o processo de profissionalização do conteúdo, do predomínio de mídias de produção mais cara, como imagens e vídeo, de redução da importância do grafo social (quem você segue/é amigo) e aumento da importância do que faz sucesso, da distribuição independente de do grafo social. No fim, não creio que a sociedade tenha uma demanda tão grande por redes sociais quando comparada dom a demanda por entretenimento, por televisão.

      • @masdivago entendi. É, concordo, o aumento da qualidade dos equipamentos, e adiciono aqui o fator dos mecanismos de vicio dos vídeos rapidos como se tu tivesse zarpeando de canal sem aprofundar, fez essas mídias desbancarem as redes sociais, que já foram xodó das pessoas, como orkut e o facebook na época que tinha uma linha do tempo socialmente efetiva.

        mas é muito doido ver TODAS essas redes virando uma grande TV, até o twitter, que era de trocar papos com a comunidade virou isso.

  2. eu concordo bem. o fediverso, no fim das contas, não dá lucro — pelo menos não da mesma forma que as redes sociais com algorítimo — e é isso que valorizamos. não culpo as pessoas por permanecerem em outros lugares. a maioria dos amigos realmente fica lá. vai no mainstream. mas é feito pra ser assim né?

  3. @masdivago eu desisti de convencer as pessoas a vir pra cá, como dizia o Saramago: ato de convencer é um desrespeito, uma colonização do outro. De uns tempos pra cá eu prefiro fortalecer os laços de amizade com quem já está por aqui.

    • O que estava tentando explorar nesse texto (e me repetindo, porque meio que já falei isso em outras ocasiões) é que o gancho para convencer as pessoas a vir para o Fediverso é quando elas demonstram que não gostam das mídias sociais imperialistas. Nesse caso, acho que se afasta dessa tentativa de colonização do outro e passa a ser um convite a experimentar algo que pode ser uma solução para os problemas que ela experimenta.

      • @masdivago sim, sim, queremos que as pessoas que gostamos compartilhem dos nossos hábitos e das coisas que gostamos também. É bem decepcionante mesmo e frustrante pessoas alinhadas com nossos ideais de vida e visão de mundo tratando o fediverso dessa maneira.

      • @masdivago sim, sim, queremos que as pessoas que gostamos compartilhem dos nossos hábitos e das coisas que gostamos também. É bem decepcionante mesmo e frustrante ver pessoas alinhadas com nossos ideais de vida e visão de mundo tratando o fediverso dessa maneira.

  4. @masdivago eu acho que é exatamente isso. O fediverso não é um equivalente das redes sociais mainstream. É outra coisa, não é pra quem busca manter a mesma lógica delas.

    • O que não quer dizer que não possa crescer umas dez vezes, mas sem mudanças estruturais, não sustentaria influenciadores, então acredito que não atrairia público.

      • @masdivago mas eu acho que o rolê mesmo é não ter essas coisas de influenciadores, é a lógica que me fez sair do ig, por exemplo…

  5. Eu encaro o Fediverso como a porta de entrada de uma tecnologia mais madura, que deixa algoritmos de escanteio e trata o usuário com mais prioridade; a ausência de banners chatos que vendem tênis caros já é um ponto positivo a meu ver. Como as redes do mainstream já se abarrotam há tempos com publicidade redundante escancarada, isto dá ao Fediverso mais uma carta na manga.

  6. @masdivago Concordei bastante com o texto, e até escrevi sobre algo similar aqui https://go.rocha.social/@bruno/statuses/01KFBRZZRD8JN5QC19Y7TZJJ63

  7. @masdivago
    quase não uso o bsky, apenas pra pentelhar um amigo dazantiga q é
    kurinthianu roxo ou um ou outro pitaco
    quando me dá la puta gana…

  8. Entendi o ponto do texto, mas não sei se concordo com algumas premissas.

    Primeiro, a de definir que todo mundo que está lá nas mídias sociais das bigtechs quer shows do Lollapalooza… minha tia, minha mãe e meu primo nerd, não querem, só queriam um lugar pra ver e compartilhar fotos da família, mas como todo mundo, foram capturados por um design orientado ao lucro que tenta transformar todas as quermeces de bairro em mini-lollapaloozas monetizadas.

    Segundo, a de definir que o fediverso não é algo que pode ser mais amplo, usado por produtores de conteúdo. Justamente pelas características que você apresenta, acho que ele tem uma forma mais ética – e por isso mais interessante, de distribuir/entregar conteúdo… Mas se ele vai ser consumido/acessado/compartilhado, por milhões, não é uma questão de design, é uma questão de escala e interesse.

    Eu defendo uma visão do fediverso como uma versão “orgânica” das redes sociais comerciais… Tem características semelhantes, mas sem os agrotóxicos e milhares de conservantes e espessantes.

    Acho que ele propõe uma arquitetura diferente, mais saudável e mais resiliente, mas sempre me incomodo quando vejo ele sendo tratado como uma coisa de “nicho”, pra “poucos”…. (não que você tenha dito isso, mas suas premissas levam um pouco pra essa linha de pensamento).

    Justamente pelas qualidades e versatilidade do fediverso, acho que ele pode comportar quermeces de bairro, lollapaloozas e blocos de carnaval… E permitir que as pessoas andem nesses três diferentes tipos de festa, sem pasteurizar tudo em modelo de televisão.

    E, não por acaso, tenho pesquisado e trabalhado em formas de fazer com que isso aconteça, em iniciativas como a organica.social, onda.social e farol.app.br

    e muito obrigado pelo texto provocador e pela ótima reflexão que ele me proporcionou.

  9. @masdivago, falaí, tudo bão?

    Vi seu texto no imperdível feed do @josemurilo e vim aqui colocar no fediverso os comentários que escrevi lá no blog.

    Compreendi o ponto do texto, mas não sei se concordo com algumas premissas.

    • Primeiro, a de definir que todo mundo que está lá nas mídias sociais das bigtechs quer shows do Lollapalooza… minha tia, minha mãe e meu primo nerd, não querem, só queriam um lugar pra ver e compartilhar fotos da família, mas como todo mundo, foram capturados por um design orientado ao lucro que tenta transformar todas as quermeces de bairro em mini-lollapaloozas monetizadas.

      • Segundo, a de definir que o fediverso não é algo que pode ser mais amplo, usado por produtores de conteúdo. Justamente pelas características que você apresenta, acho que ele tem uma forma mais ética – e por isso mais interessante, de distribuir/entregar conteúdo… Mas se ele vai ser consumido/acessado/compartilhado, por milhões, não é uma questão de design, é uma questão de escala e interesse.

        • Eu defendo uma visão do fediverso como uma versão "orgânica" das redes sociais comerciais… Tem características semelhantes, mas sem os agrotóxicos e milhares de conservantes e espessantes.

          Acho que ele propõe uma arquitetura diferente, mais saudável e mais resiliente, mas sempre me incomodo quando vejo ele sendo tratado como uma coisa de "nicho", pra "poucos"…. (não que você tenha dito isso, mas suas premissas levam um pouco pra essa linha de pensamento).

          • Justamente pelas qualidades e versatilidade do fediverso, acho que ele pode comportar quermeces de bairro, lollapaloozas e blocos de carnaval… E permitir que as pessoas andem nesses três diferentes tipos de festa, sem pasteurizar tudo em modelo de televisão.

            E, não por acaso, tenho pesquisado e trabalhado em formas de fazer com que isso aconteça, em iniciativas como a organica.social, onda.social e farol.app.br

            e muito obrigado pelo texto provocador e pela ótima reflexão que me proporcionou

    • Opa! Obrigado pelos comentários. Estava, nos últimos dias, exatamente escrevendo um artigo com o @josemurilo para defender a adoção do Fediverso por instituições culturais. Talvez tenha lido nos outros comentários, mas pensei o texto mais no sentido de que precisamos parar de fazer propaganda do Fediverso como um substituto equivalente das mídias sociais capitalistas, não no sentido de que seria algo de nicho.
      Achei especialmente interessante no seu comentário você dizer que

      > só queriam um lugar pra ver e compartilhar fotos da família, mas como todo mundo, foram capturados

      Existe uma flexão de tempo importante. Mesmo que a maioria das pessoas tenha começado a usar plataformas enquanto ainda eram redes sociais e estivesse em busca disso, hoje essas plataformas são mídias que recriam o Lollapalooza, e não é isso que o Fediverso entrega. Ou seja, para a maioria das pessoas, migrar para o Fediverso exigiria uma “desintoxicação”, para continuar na metáfora do orgânico e do tóxico.
      Um dos argumentos centrais do artigo que estava escrevendo é que o engajamento orgânico[1] é melhor para instituições culturais do que a linha do tempo algorítmica. Alcance orgânico são significa necessariamente alcance pequeno mas, para mim, produzir conteúdo para alcance orgânico exige sair da lógica da mídia de massa[2] que domina. Os próprios criadores de conteúdo precisam se desintoxicar, passar a ver a possibilidade de existirem outros tipos de festa além do Lollapalooza.
      Eu vejo um potencial de crescimento enorme do Fediverso, mas acredito em basear esse crescimento nos descontentes com as mídias sociais, portando, nossa propaganda precisa destacar a singularidade, a diferença, e não a similaridade. Se formos pensar em ermos de estrutura econômica, existe um potencial disuptivo absurdo, porque se o capitalismo de vigilância é uma forma de acumulação primitiva, o Fediverso é uma espécie de quilombagem[3].

      1 – https://masdivago.cc/2024/08/30/como-o-mundo-esqueceu-do-poder-organico-da-internet/
      2 – https://masdivago.cc/2024/09/16/nem-toda-comunicacao-social-e-de-massa/
      3 – https://masdivago.cc/2025/12/06/a-web-social-como-quilombagem/

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