Um dos aspectos mais perniciosos da subjetividade neoliberal em que estamos imersos até o pescoço é a glorificação do egoísmo, a demonização do bem. Ser uma boa pessoa é ser “trouxa”, porque o ideal de bem em uma sociedade baseada na exploração não pode ser outro que não o explorador.
O capitalismo avança transformando tudo em mercadoria e aplicando a lógica do mercado a todos os aspectos da vida, inclusive o que nunca deveria ser medido pela régua do mercado. Boa parte dos conselhos sentimentais e amorosos que circulam em valas de dejetos como o Instagram é indistinguível de conselhos para a administração de empresas, em que cada pessoa deve tentar maximizar seus lucros. Mas, surpresa, a única maneira de maximizar seus lucros é às custas dos outros, é explorando os outros. O discurso que confunde empoderamento, autoestima e autovalorização, com egoísmo, com pensar apenas no que você pode ganhar com as situações, as relações e as pessoas é um dispositivo que confunde o egoísmo com o bem. Uma subjetividade que tenta nos fazer acreditar que uma pessoa é admirável quando ela toma dos outros para si, quando acumula e enriquece, em vez de quando ela se dedica, contribui com os seus.
Mas, sejamos francos, as boas pessoas são generosas, e não egoístas. São empáticas e se preocupam com o outro, ajudam o outro sem esperar nada em troca. As pessoas boas e generosas com quem queremos conviver não são as pessoas mesquinhas e egoístas que estão nos ensinando que devemos ser. Ser uma boa pessoa inclui ser um pouquinho trouxa também. Claro, não dá para ser demais, ainda mais em uma sociedade que educa as pessoas para serem parasitas aproveitadores que pensam sempre no que eles acham que merecem receber e quase nunca no que eles oferecem.
Essa visão competitiva parte de uma visão de mundo baseada na escassez, na falta, em que para uma pessoa ter algo, outra pessoa precisa perder algo. Mas, se isso pode funcionar para algumas áreas, para boa parte das relações humanas, isso não faz sentido. Afeto e dedicação estão longe de ser recursos não renováveis. Não existe um estoque finito, escasso, de onde se extrai e distribui desigualmente amor. Amor não é uma competição para ver quem acumula mais. Amor se cria cotidianamente e a melhor maneira de fazer ele acabar é exatamente o que a sabedoria dos reels encoraja: dividir o trabalho da sua criação de modo injusto.
Pessoas boas fazem o bem, são generosas e inspiram a gratidão, que inspira mais boas ações, em um ciclo virtuoso. Mas as pessoas que a subjetividade neoliberal quer e constrói não são gratas. Se sentem no direito de usufruir da dedicação alheia. Se acham melhores por aplicar às relações humanas a lógica da concorrência de mercado, de explorar o “trouxa” ao máximo, e fazem o máximo possível para não agir com a generosidade que exploram, que deploram.
A pessoa perfeitamente adaptada ao neoliberalismo é um agente de mercado racional, ou em palavras mais honestas, um escroque parasita sociopata. Em um mundo onde este tipo de monstro é incentivado, é claro que as pessoas boas, generosas e empáticas sofrem, são enxovalhadas, chamadas de trouxa. Nesse mundo, ser uma boa pessoa é a escolha consciente e racional de ser trouxa.
Seja trouxa.
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Fernanda Lobato
@masdivago Costumo dizer: sou boa, não ingênua.
Resposta remota
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Mas divago...
Não dá para ser muito ingênuo num ambiente tão cheio de aproveitadores.
Walisson Aguirra
Não posso deixar de acreditar que ainda existam pessoas que escolhem não fazer parte disso. Eu sei que elas existem e que estão por aí.
Roney Belhassof
@masdivago Isso tem me incomodado cada vez mais, essa deterioração de tudo em produto. Ter vindo pro Fediverso aumentou ainda mais por causa do contraste, aqui não está livre da influência da nossa época, mas acho que muita gente aqui está incomodada com a mesma cosia, então o mercantilismo é muito menor.
Eu queria agir no Instagram quebrando essa impressão. Ainda não sei como…
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Mas divago...
Não sei se agir no Instagram é uma boa ideia. Suspeito de se tornar uma jornada quixotesca, porque qualquer coisa contra hegemônica vai ser enterrada pelo algorítimo. Cada vez mais tenho acreditado que o mais importante é convencer as pessoas a saírem de plataformas como o Instagram.
Roney Belhassof
@masdivago Essa é justamente a minha ideia. Andei fazendo uns testes lá. Tudo que publico aponta pra fora, link em stories, no texto ou no que digo, como “aqui é a pequena Internet onde tudo é limitado pelos algoritmos. Dizem que a Internet está morrendo, mas isso só vale pra pequena Internet, a grande Internet continua lá e crescendo. No link na minha bio tem recomendações!”
Ele até entrega, mas só pra convertidos. O plano é fazer algo como: mande por dm ou WhatsApp pra quem precisa!
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